quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Arriba Fóssil e o Regresso às Origens Argilosas

Erosão e Vulnerabilidade: O Desnudar da Costa de Caparica


 
A Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, outrora imponente e resguardada por extensos areais, atravessa hoje uma fase de transformação profunda e visível. O recuo da linha de costa, impulsionado pela subida do nível do mar e pela crescente violência das tempestades invernais, tem provocado um desequilíbrio sedimentar severo. O oceano, ao retirar a areia que servia de barreira natural e amortecedor, expôs o que estava escondido há milénios: as camadas de solo argiloso e as bases rochosas que sustentam a arriba.

Esta exposição das argilas altera radicalmente a fisionomia da paisagem. Onde antes existia o dourado das dunas, surgem agora tons acinzentados e superfícies plásticas que reagem de forma diferente aos elementos. Ao contrário da areia, que permite a drenagem da água, a argila é impermeável e instável quando saturada. Este fenómeno cria um ciclo de vulnerabilidade, pois o solo argiloso, ao tornar-se escorregadio e quebradiço, facilita o deslizamento das camadas superiores e acelera a erosão da própria arriba, colocando em risco a flora endémica que se agarra às vertentes.

O que observamos é, na verdade, a Arriba Fóssil a reclamar a sua natureza geológica. Sendo um registo vivo de épocas em que o mar batia directamente contra estas arribas, o cenário actual é um regresso forçado ao passado, mas com a urgência imposta pelas alterações climáticas. A perda do areal não é apenas uma questão estética ou turística; é a remoção da armadura da costa, deixando a "carne" da terra — estas argilas e sedimentos antigos — à mercê da força erosiva das marés, redesenhando o mapa de um dos ecossistemas mais sensíveis de Portugal.

O Recuo do Escudo e a Exposição da Arriba Fóssil na Costa de Caparica 

Esta metamorfose é particularmente dramática na zona da Fonte da Telha, onde a erosão deixou de ser uma estatística abstracta para se tornar uma evidência física avassaladora. Em determinados troços desta praia, a fúria das marés e a escassez de reposição sedimentar resultaram num rebaixamento drástico do areal, com perdas que superam os quatro metros de altura de areia. Onde outrora existia um plano suave e contínuo, restam agora desníveis abruptos que funcionam como uma ferida aberta na paisagem, revelando a anatomia escondida da costa que deveria permanecer protegida.

Este desaparecimento vertical da areia actua como um catalisador de instabilidade, pois ao remover esta "almofada" de quatro metros, o oceano ganha um acesso directo e violento à base da arriba. Sem a protecção do volume arenoso, a base da Arriba Fóssil sofre o impacto directo da ondulação, o que acelera o processo de sapa (erosão de base) e compromete a sustentabilidade de toda a vertente. O afloramento das camadas argilosas profundas, outrora soterradas por toneladas de sedimentos, transforma o solo numa superfície escorregadia e instável, dificultando a fixação da vegetação e colocando em causa a segurança de acessos e infraestruturas que foram projectados para uma cota de praia muito superior. O que vemos na Fonte da Telha é o colapso de uma barreira natural, onde a ausência da areia deixa a arriba exposta a um embate para o qual não está preparada, redesenhando de forma irreversível a fronteira entre a terra e o mar.


 

terça-feira, 25 de julho de 2023

Pinhal do Rei ou Mata dos Medos da Caparica

No reinado de D. João V (1706-1750) foi mandada semear, no topo da arriba, zona relativamente plana, a atualmente denominada Mata dos Medos ou pinhal do Rei com o objetivo de proteger a área agrícola interior da progressiva invasão dos medos (lê-se "médus") ou dunas. Classificada como Reserva Botânica em 1971, a mata estende-se por cerca de 5 km entre a Descida das Vacas e a Fonte da Telha ocupando uma superfície de 340 ha, nela se podendo observar belos exemplares de pinheiro-manso e de sabina-da-praia, que ali adquire porte arbóreo. No estrato arbustivo evidenciam-se a sabina da praia, a aroeira, o medronheiro e o carrasco. Alberga 3 endemismos lusitânicos (espécies que apenas existem naturalmente em Portugal continental) e 12 espécies endémicas da Península Ibérica. 

Implantada em dunas interiores de constituição antiga, a sua altitude varia entre os 60 m (na crista da arriba) e os 110 m (cabo da Malha).




A Mata dos Medos situa-se na plataforma superior da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, nos concelhos de Almada e Sesimbra, ocupando uma faixa de 5 km ao longo da costa ocidental da península de Setúbal, perfazendo uma superfície de 338 hectares.

Terá sido mandada instalar pelo rei D. João V, entre 1689 e 1750, para impedir o avanço das dunas ou medos1 para as terras agrícolas. É atualmente o grande pulmão do concelho de Almada.

Foi classificada como Reserva Botânica em 1971, pelo decreto-lei n.º 444 771 de 23 de outubro, devido à riqueza florística apresentada. A mata apresenta grande riqueza e diversidade de espécies características do ecossistema de pinhal.

Estão assinalados três endemismos lusitânicos e quinze ibéricos de elevado valor botânico.

É uma extensa área de pinhal, com pinheiros centenários e uma reserva botânica com espécies autóctones. O rosmaninho, a aroeira, a sabina-da-praia e o tomilho são alguns dos exemplares da flora que podemos facilmente encontrar.

Na fauna ainda existente, apesar da forte pressão urbanística, persistem algumas rapinas como a águia-de-asa-redonda, o açor, o peneireiro-cinzento e o peneireiro vulgar, bem como alguns exemplares noturnos, como o mocho-galego e a coruja das torres. A lebre, o ouriço-cacheiro, a toupeira e ainda a raposa, o toirão, a geneta e o gato-bravo completam a lista da avifauna presente no maciço verde.

Algumas espécies de aves migratórias escolhem também a Mata dos Medos para nidificação. Durante todo o ano residem no pinhal o pica-pau-malhado-grande, a alvéola-branca, a poupa, o cuco, o pintassilgo, o pisco-de-peito-ruivo, o melro, a perdiz-comum, a pega-rabuda e a gralha.

Os anfíbios e os répteis estão também bem representados neste ecossistema costeiro.

Na Mata dos Medos, como em muitas zonas protegidas de elevado interesse ambiental, estão previstos projetos que são alvo de várias críticas por parte de organizações ambientalistas do nosso país. Estas são zonas muito sensíveis que devem ser protegidas, as intervenções nelas realizadas têm de ser bem ponderadas, estudadas e avaliadas, sobrepondo-se a quaisquer interesses economicistas.

O investimento em programas de sensibilização da população permanente e sazonal deverá ser uma prioridade, para que se atribua mais valor à riqueza intrínseca que estas zonas representam. A Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica é visitada anualmente por centenas de milhares de pessoas, principalmente na época estival, na procura da orla marítima e do usufruto das matas nacionais.
















 Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos parte integrante da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica

Fotografias Zito Colaço

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Hél­der Jóia da Sil­va, en­ge­nhei­ro sil­vi­cul­tor, na Mata dos Medos.


No dia 1 de Fevereiro tivémos a visita, na Mata dos Medos, de Hél­der Jóia da Sil­va, en­ge­nhei­ro sil­vi­cul­tor e um dos pou­cos téc­ni­cos exis­ten­tes, no país, com ex­pe­ri­ên­cia pro­fis­si­o­nal em ár­vo­res ur­ba­nas. Nesta sua visita, remete-nos para um artigo  da sua autoria, escrito em  colaboração com António Fabião, para a Revista Florestal, em 1994 e que volta a referir em 2018. O artigo intitulado -  

 "As podas camarárias: considerações sobre a futilidade de um acto de mutilação" é um tema fulcral, pertinente e actual. Diz o autor: " ...continuo a ver que esta prática se instalou nas nossas vilas e cidades, sem que os responsáveis se apercebam dos malefícios que provocam nas árvores urbanas.

...Pelos benefícios que elas nos trazem  trazem é impensável uma urbe pequena ou grande sem árvores; estas são um filtro de poeiras, sumidouros de CO2, dissipam energia dos ventos, absorvem ruído, dão-nos sombra, são um suporte da diversidade biológica."
  
Sobre aquilo que viu na Mata dos Medos, mostrou preocupação,  relativamente, ao desmatamento verificado, reiterando que há condições para a proliferação das invasoras como o Carpobrotus edulis (chorão) e a acácia-de-espigas.

Diz não entender este tipo de intervenção florestal,  em zona protegida e reserva botânica e que o ressecamento do solo é um convite à proliferação das plantas invasivas e um foco de incêndios. 

Convida-nos a ler o seu artigo, que deixamos aos interessados. 

Agradecemos a sua presença e deixamos a tónica, na educação ambiental e na vigilância, ao alcance de todos nós.











 

A Arriba Fóssil e o Regresso às Origens Argilosas

Erosão e Vulnerabilidade: O Desnudar da Costa de Caparica   A Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, outrora imponente e ...